quarta-feira, 30 de abril de 2025
CT Nº 488 - PICK UP CHEVROLET (MARTA ROCHA)
Ano 1956
Foto: Mauricio Albano
Quando lançados ao início de 1955, montadas no Brasil, os novos picapes Chevrolet — e sua linha camional GMC — fizeram impacto. Novidade não vista, motores de seis cilindros em linha, comando no bloco de ferro, válvulas no cabeçote do mesmo material, quase quatro litros de deslocamento e uns 100 cv sobre quatro mancais. Evolução do engenho apresentado em 1929, portavam grande novidade: abandonavam a lubrificação por unhas apostas às capas de biela, por onde recolhiam do cárter o óleo da lubrificação e, em substituição, bomba de óleo.
Maior referência era visual. Eram impositivos, marcavam evolução de estilo, abandonando as formas arredondadas e as soluções herdadas à estética pré-II Guerra Mundial, para adotar a voluptuosidade de linhas assinaladora do meio daquela década. Deixavam a aparência de partes arredondadas, ao elevar os pára-lamas contendo os faróis circulares, simples, de 7 polegadas — quase 18 cm —, à proximidade do topo do capô e, na caçamba para carga os pára-lamas projetados para fora pareciam esculpidos, expressando volume com elegância e sugerindo dinamismo. Pelo pequeno estribo lateral foram chamadas posteriormente, quando iniciaram ser tratadas como objeto de coleção, como Step Side. Havia versão luxuosa, com caçamba reta, a Cameo — sem o charme do estilo.
Eram bonitas, roliças, mais largas, grande evolução relativamente à linha pós-guerra produzida entre 1948 e 1954 — estas últimas ditas “boca-de-bagre”, pela conformação de sua grade em chapa pintada de amarelo claro.
Carimbo
O mercado carioca, então sede do poder federal, da capacidade de gerar costumes e institucionalizar leis, meca da cultura e do fazer moda, de observadores de costumes e humoristas, tão logo viu o carro, aplicou-lhe o apelido: "Marta Rocha".
Dispensava explicações. Marta (em verdade com "h", Martha) era a bela baiana eleita Miss Brasil no ano anterior, e daqui saíra levando as esperanças nacionais de conquistar o título mundial da beleza feminina, o Miss Universo. Um concurso bem-vendido mundialmente, espécie de Oscar da beleza.
Martha era de tempo distante, quando as brasileiras ainda não eram louras, famélicas e, no caso específico, sob o ponto de vista plástico ou da engenharia, a candidata brasileira apresentava, digamos, ótima distribuição de massas e volumes. Resumo das elevadas análises em botequim, muito gostosa. Ou, no dizer prático, porém tangencial dos árabes, mulher para encher a cama.
No período, logo após o suicídio do então Presidente Getúlio Vargas, e governo tíbio e fugaz de Café Filho, tutelado pelos militares, estávamos inseguros, em período de baixa estima, e ainda tínhamos dificuldade em digerir a derrota na Copa do Mundo de Futebol para o Uruguai em 1950, ali, inaugurando a monumentalidade do estádio do Maracanã. País da alegria, do colorido, da música, da então inocente malandragem simpática, tornado colônia dos produtos e modas americanas no pós-guerra, perdêramos no futebol, um dos pilares das nossas vantagens e orgulho.
Na bagagem a bela baiana levava nossa expectativa de resgate de alguma auto-estima. À época, diria a sociologia goiana, estávamos mais por baixo que bunda de sapo sentado....
Martha foi-se aos Estados Unidos da América, organizador e sede do concurso na cidade de Long Beach, na Califórnia, levou nossas esperanças e junto, em época de limitada tecnologia de informação, alguns jornalistas para cobrir ao vivo, e mandar textos e fotos por malote aéreo. Dentre estes, o repórter João Martins, enviado especial da carioca revista semanal O Cruzeiro, dos então líderes e portentosos Diários Associados. Para quem não conheceu, um parâmetro: até hoje nenhuma publicação brasileira a igualou na média tiragem x população. Àquela época, quando éramos pouco mais de 50 milhões de brasileiros, a revista tirava 720 mil exemplares. Para exemplificar, hoje, os 190 milhões de brasileiros lêem imaginado 1 milhão de exemplares de Veja, a de maior circulação. Na média, quase 2,8 vezes mais.
A mais
Mas não ganhou. Perdeu para uma mocinha americana, desmilingüida em presença e formas, conjunto inexpressivo cujo nome o tempo apagou. E foi a reportagem de João Martins a esclarecer e justificar a indigesta derrota: a medida dos quadris de Martha superava a do busto —- 98 x 100 cm . E duas polegadas, 5 cm, mais que a concorrente dos EUA. Difícil engolir a preterição da harmônica sinuosidade da bela baiana pela pouca emoção da ausência de curvas da americana.
A irreverência e o bom humor cariocas logo aplicaram o conceito. Olharam a caminhonete, seus pára-lamas arredondados, mais larga que a anterior, e logo sapecaram: "Marta Rocha".
O nome colou, bem colado, e se mantém até hoje, quase seis décadas passadas, indicando a seriação dos últimos picapes montados pela General Motors do Brasil, antes de iniciar produzir sua sucessora, a Chevrolet Brasil, apresentada como 1958. Esteticamente foi um retrocesso, formada pela cabine descontinuada em 1954 de estampos exumados, a tal boca-de-bagre, com novos pára-lamas ociosamente largos. Sem apelo, graça, retrocesso em estilo e ergonomia relativamente à "Marta Rocha".
E agora?
Hábil pesquisador, pena ilustrada, o jornalista Ruy Castro resgatou a história da derrota de Martha na Folha de S. Paulo, 24.setembro.2011. Escreveu, João Martins, com ágil espírito jornalístico, ante a inesperada derrota, e com a responsabilidade de dar cor e emoção ao resultado, como cobrariam os leitores, combinou com os colegas reunidos para a cobertura, e criaram a história das duas-polegadas-a-mais, nunca existente no critério de julgamento do júri. Na realidade a derrota não se deu por razões estéticas, mas meramente de estratégia-política-negocial, pois o concurso, espraiando-se mundialmente, perdia interesse nos EUA, e a conquista pela representante americana poderia reacender o interesse — e patrocínios, e faturamento.
Na vida real do mundo antigomobilista, o esclarecimento servirá como adição ao folclore permeando cada um dos exemplares sobreviventes, mesmo aos desconhecedores de nossa sempre miss ou a razão do nome. E se a Martha, original, hoje com 77 anos, não perdeu pelas duas polegadas a mais, aqui o apelido (sem "h") continua identificativo, válido, verdadeiro: as caminhonetes Chevrolet entre 1955 e 1957 são os mais belos exemplares do segmento até hoje construídos. (E as GMC, idênticas e diferenciadas por detalhes? Não as vejo assim. Diria, com liberdade comparativa, se equivale à diferença entre o barroco alemão e o praticado nas igrejas de Minas Gerais. As nossas são mais bonitas por conterem menos rococós. Como no caso da Marta Rocha, bonita por si só, desnecessários badulaques e penduricalhos do GMC).
Fonte: https://pt.wikipedia.org/
Marcador: Transporte
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